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Os
Rumos de Tatit
Luiz Tatit é professor do Departamento de Lingüística
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da USP. Voltado, sobretudo, para a pesquisa da semiótica
da canção popular, publicou vários livros:
A canção: eficácia e encanto;
Semiótica da canção: melodia e letra;
O cancionista: composição de canções
no Brasil; Musicando a semiótica: ensaio;
Análise semiótica através das letras.
Bacharel em Música, é compositor, violonista
e cantor. Além de fundador e integrante do grupo Rumo,
gravou dois CDs em trabalho solo: Felicidade (1997)
e O Meio (2000).
Nesta entrevista, o músico e lingüísta
avalia os seus desdobramentos na conciliação
das duas atividades. Comenta ainda a “secretarização”
da universidade brasileira e os idos do Rumo.
Em sua gênese, o Rumo tem estruturado o objetivo
de expandir as fronteiras da composição, arranjos
e interpretações no cenário musical brasileiro
da época, ou o perfil experimentalista e de pesquisa
sonora do grupo foi surgindo no decorrer do tempo?(1)
De fato, a razão de ser do Rumo, em sua fase inicial,
estava intimamente associada à proposta de trazer novidades
à canção brasileira. Só compúnhamos
ou gravávamos coisas que acrescentassem algo à
evolução dessa linguagem. À medida que
o tempo foi passando e que o grupo já havia incorporado
uma técnica particular de composição
e arranjo, a questão da experimentação
foi deixando de ser prioridade. Passamos então a produzir
mais livremente.
“Por
isso que sempre no início
A gente não sabe como começar
Começa porque sem começo
Sem esse pedaço não dá pra avançar
Mas fica aquele sentimento
Voltando no tempo faria outro som
Porque depois de um certo ponto
Tirando o começo até que foi bom”
Trecho
da música "O meio", do disco O meio
Em
1987, você realizou em São Paulo o show “3
Caravelas”, juntamente com Itamar Assumpção
e Tom Zé, em comemoração aos 20 anos
da Tropicália. Havia uma preocupação
em atualizar o tropicalismo à moda paulistana?
Havia a preocupação de que o tropicalismo fosse
representado por artistas que atuassem nos anos 80 com um
espírito semelhante ao do tropicalismo nos anos 60.
Tom Zé era a própria encarnação
desse espírito – pois tinha participado do primeiro
movimento. Os organizadores acharam que Itamar e eu (como
compositor do Rumo) também preenchíamos os requisitos
para essa comemoração.
Observa-se que de fato o Rumo criou uma nova linguagem
musical, comumente tratada pela mídia como um estilo
de “não-canções” ou “anticanções”.
Como você avalia essa repercussão?
Se tivéssemos criado não-canções
teríamos fracassado totalmente. Demos nossa vida musical
para a configuração da linguagem da canção,
desde os antigos até a nossa época. Tentamos
dizer o tempo todo que fazíamos uma canção
essencial ou até radical. Essas expressões aparecem
por vezes na imprensa para resolver dificuldades circunstaciais
dos jornalistas de encontrar um vocabulário condizente
com um tipo de música que não lhes é
familiar.
Em
1988, o Rumo recebeu o Prêmio Sharp de melhor álbum
infantil com Quero Passar. Pode-se dizer que o Rumo foi precursor
de um novo estilo de música feita para o público
infantil? Havia uma pesquisa estética enfocando esse
público?
Sim,
acho que o Rumo iniciou um trabalho na área infantil
que desencadeou mais tarde as produções do Paulo
Tatit (com o selo Palavra Cantada) e do Hélio Ziskind.
Na época, não houve qualquer pesquisa, apenas
um pouco de bom gosto pra fazer as composições.
Hoje, o Palavra Cantada viaja por todo o Brasil, elaborando
pesquisas sobre gêneros, ritmos etc.
“Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu"
Trecho
da música "Capitu", do disco O
meio
Observando o conjunto de seu trabalho como compositor,
nota-se que mesmo as músicas não classificáveis
como “músicas para crianças” parecem
possuir um certo tom capaz de agradar, ou, pelo menos, chamar
bastante a atenção do público infantil,
conforme já ocorrera com bandas como Mutantes e Secos
& Molhados. Como você explicaria esse efeito?
Sim. Trata-se do efeito “entoação”
que, aliás, está na base de qualquer canção
popular, só que nem sempre de modo explícito.
Os ouvintes de nossas canções deparam com um
modo de dizer “falado” que faz com que a música
se torne mais figurativa, como se fosse um desenho no meio
de um quadro abstrato. As crianças reconhecem sua própria
maneira de falar convertida em música.
Em um depoimento - julho de 2002 - você diz:
“Minha carreira é na Universidade, a música
sempre foi uma atividade paralela e sempre privilegiei a composição
[...].” Há uma coincidência entre a criação
do Rumo e o início de sua formação acadêmica
em Letras e em Música. O seu trabalho na academia versa
sobre a canção popular e a sua música,
apesar da aparente leveza e despretensão, é
bastante conceitual. Por que falar, então, em atividades
paralelas?
Embora haja muitas conexões entre as duas atividades
– afinal, são desenvolvidas pela mesma pessoa
–, elas são totalmente independentes e, até
mesmo, uma perturba a evolução da outra. Poderia
ser só pesquisador, aplicando meus modelos na canção
(tanto como no cinema, na televisão, nas artes plásticas...)
e faria toda a carreira sem precisar produzir “obras”
estéticas. Poderia só compor, fazer shows e
gravar, sem me envolver com qualquer enfoque acadêmico,
e certamente eu teria composto bem mais e me dedicado a inúmeras
frentes de trabalho no âmbito musical. Preciso das duas
coisas como realização pessoal, mas sei bem
(e muita gente não cansa de me soprar aos ouvidos)
que se me dedicasse a uma só vertente poderia responder
mais prontamente a todas as encomendas, incluindo a esta entrevista
que demorei para lhes responder. Estou sempre me desdobrando
para dar conta.
“Sempre dispersiva
Sempre muito ativa
Sofia é do tipo que não pára
Não espera e mal respira
Imagine se ela vai ouvir poesia!
Sofia, escuta essa, vai
É pequena
É um haicai"
Trecho
da música "Sofia", do disco Felicidade
Alguns setores da academia acreditam ser impossível
uma aproximação maior entre universidade e sociedade
em geral, na medida em que o nível de especialização,
inerente à atividade acadêmica, impediria esse
diálogo. Como você, que atua dentro e fora da
universidade, analisa essa questão?
A dificuldade de aproximação, a meu ver, se
deve a fatores de outra ordem. Os professores exercem tarefas
administrativas que não deveriam ser de sua alçada.
Há profissionais competentes para desempenhá-las.
O professor é um funcionário público
que presta conta, presta conta e presta conta, e tenta produzir
um pouco em fins de semana e nas férias porque senão
fica difícil “prestar conta” nos relatórios
do final do ano. Para programar ações culturais
no meio social, você precisaria de um tempo extra que
as universidades não oferecem (a menos que a “ação
cultural” esteja prevista no currículo do curso).
Como eu já lidava com música antes de ingressar
da Universidade, venho tentando pelo menos manter essa atividade
a duras penas, pois a toda hora sou chamado para reuniões
sobre temas pelos quais não tenho qualquer interesse.
Portanto, a falta de diálogo não me parece ter
a ver com excessiva especialização e sim com
excessiva “secretarização” da Universidade.
A
sua produção intelectual tem como foco a música.
Por que a semiótica como viés de abordagem da
canção popular?
A minha produção intelectual tem como foco teórico
a semiótica e como objeto de estudo a canção.
A semiótica me permite ouvir a canção
como um entrosamento refinado entre melodia e letra sem me
empurrar para abordagens “musicais”, “literárias”
ou “sociológicas” que pouco tem a ver com
a canção. Gosto de considerar a canção
uma linguagem à parte que precisa ser enfocada com
parâmetros adequados. Só a semiótica abre
uma perspectiva nessa linha de abordagem.
1-
Entrevista elaborada com a colaboração especial
de Eduardo Maia (FALE).
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